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O que é Pensamento Crítico e como Desenvolver?Tempo estimado: 9 minutos de leitura

Com o volume impressionante de dados que recebemos, o exercício do pensamento crítico é o ponto chave na hora de filtrar o que realmente importa. 

Grande Volume de Dados: Tendência que Nunca vai Sair de Moda

Um estudo realizado pela IDC em 2018 estimou que no ano de 2025 a projeção de dados produzidos será de surpreendentes 175 Zettabytes.

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Caso você não tenha noção dessa dimensão, a escala a seguir explica:


– 1024 MB =1 GB (Gigabyte)
– 1024 GB = 1 TB (Terabyte)
– 1024 TB = 1 PB (Petabyte)
– 1024 PB = 1 EB (Exabyte)
– 1024 EB = 1 ZB (Zettabyte)

A pesquisa da IDC para 2025 ainda prevê que cerca de 6 bilhões de pessoas estarão conectadas no mundo e produzirão,  em média, um dado de interação a cada 18 segundos. 

Grande parte desses dados virão de aparelhos vinculados à Internet das Coisas (IoT). 

Apenas com essas interações sociais de usuários com seus dispositivos, espera-se um volume de 90 ZETTABYTES de dados.

Neste mar de informações, você vai “nadar de braçada” ou se afogar?

A informação na internet 3.0- mais disponível do que nunca – tornou a aquisição de conhecimento muito mais acessível.

A troca de experiências e saberes cria e fortalece comunidades digitais por todo o mundo.

Nessa rotina de dar e receber dados, informações e experiências, recebemos mais afirmações do que nossa capacidade cognitiva pode filtrar.

E é nesse momento de abundância de informações que precisamos desenvolver com urgência uma soft skill: pensamento crítico.

Em uma pesquisa realizada pela consultoria canadense Futureworx, 46% dos entrevistados responderam que as habilidades analíticas (pensamento crítico e resolução de problemas) estavam entre as 5 principais habilidades necessárias no ambiente corporativo.

O que é Pensamento Crítico?

O pensamento crítico é uma metacognição onde o indivíduo consegue monitorar seus pensamentos e conclusões e filtrar vieses e “ruídos” de julgamento, a fim de ter um julgamento mais assertivo e desvinculado do ego.

O pensamento crítico sempre recorre ao “sistema 2”, ou seja, ele nunca é realizado de forma mecânica ou impulsiva. 

Há algum tempo li um artigo em inglês chamado “How to think effectively: Six stages of critical thinking –  A critical thinking framework developed by psychologists can help teach mental skills necessary for our times.” 

Decidi não guardar apenas para mim os insights do texto, então:

Aí vai um breve resumo:

O artigo em questão apresenta seis níveis de pensamento crítico, representados graficamente como uma pirâmide. 

É fácil entender o porquê da pirâmide:

Com o passar dos estágios, subimos em capacidade crítica e analítica.

Na prática, conforme elevamos o foco, percebemos que pouquíssimas pessoas se distribuem pelas camadas acima.

Conhecimento é poder

É preciso entender os vieses que podem atrapalhar a clareza dos seus pensamentos. 

Você pode saber mais no Guia de Vieses Cognitivos

Com que frequência você pensa sobre o pensamento?

Pensar sobre o pensamento é o primeiro passo para entender como você julga as coisas.

Quais são os seus parâmetros e impulsos a decidir se algo é bom ou ruim?

Quais são os principais vieses que influenciam a sua tomada de decisão?

Vamos aos seis estágios do pensamento crítico:

Estágio 1 – “ Unreflective Thinkers”:

Aqui somos incapazes de observar o nosso subdesenvolvimento no processo de pensamento crítico.

A maioria das pessoas não possui o hábito de pensar sobre seus pensamentos, o que abre espaço para preconceitos e concepções ultrapassadas.

Estas pessoas se encontram na base da pirâmide do pensamento crítico e são quem, na maioria das vezes, se deixam levar pelos conceitos que menos divergem do seu “status quo.”

Pessoas neste estágio inicial ainda não têm consciência sobre sua dificuldade analítica e crítica.

Estágio 2- “ Challenged Thinkers”

Aqui tomamos consciência sobre problemas em nosso ato de pensar

Neste estágio, você já  tem consciência da importância do pensamento crítico e também sabe de suas limitações enquanto um “pensador crítico”. 

Este é o momento em que ocorre um despertar sobre a importância de adquirir o olhar crítico.

 Aqui já há consciência sobre algumas distorções de percepção que podem interferir em sua tomada de decisão, porém de uma forma limitada. 

Além disso, esse grupo de pensadores muitas vezes subestima a própria capacidade de pensamento crítico.

Estágio 3- “ Begginer Thinkers”

Aqui buscamos aperfeiçoar nosso pensamento crítico, porém com pouca frequência.

Nesse estágio, os pensadores depositam mais valor à razão e desenvolvem um despertar sobre de onde vêm seus pensamentos. 

Desta forma, os pensadores deste estágio são mais conscientes sobre os vieses que interferem em sua lógica.

Begginer Thinkers desenvolvem um sistemático padrão de clareza, assertividade e lógica, tendo, muitas vezes, sucesso ao identificar, inclusive, o papel do seu ego no processo de tomada de decisões. 

Estágio 4- “ Practical Thinkers”

Aqui tomamos consciência a respeito de precisar desenvolver mais prática em pensamento crítico.

Aqui, além da alta acurácia de seus pensamentos e uma auto análise mais refinada, o pensador deste nível tem como característica a sua flexibilidade.

Assim, vai agir de modo a acolher as críticas de outras pessoas, ainda que estas não venham com soluções ou proposições de uma ação.

O pensador deste estágio irá avaliar a crítica recebida por outro com maturidade e buscará o auto aperfeiçoamento no que perceber coerente.

Este tem como prática constante a auto análise sobre seus processos intelectuais e desenvolve uma rotina de pensamento crítico acerca de sua própria forma de ver o mundo. 

Além disso, o seu processo analítico não é sistemático. 

Pessoas neste nível podem sofrer com alto nível de egocentrismo e conceder a si mesmo um exagerado grau de auto importância.

Estágio 5- “ Advanced Thinkers”

Aqui temos a prática regular do pensamento crítico.

As pessoas neste estágio têm facilidade com a auto crítica e a pratica sistematicamente buscando desenvolvê-la.

Entre as principais chaves para o desenvolvimento neste estágio de pensamento crítico estão:

  • A percepção intelectual: Para o desenvolvimento novos hábitos de pensamento.
  • A integridade intelectual: Para perceber pontos de divergência, conflito e contradição.
  • A empatia intelectual: Para entender como foi desenvolvida a lógica de raciocínio de outras pessoas
  • A coragem intelectual: Para confrontar ideias e crenças que estejam em desconexão com a lógica.

Estágio 6- “ Master Thinkers”

Aqui o pensamento perspicaz e habilidoso faz parte da nossa rotina.

Para chegar ao último nível, é preciso que além de todas as características de um Pensador Avançado, haja um forte compromisso em ser justo e razoável a fim de conseguir ganhar controle sobre o seu próprio egocentrismo.

Um Pensador Mestre não vê problemas nem sente orgulho em mudar de ideias se for confrontado por alguém que possua uma lógica mais coerente.

Como desenvolver o pensamento crítico?

Os pesquisadores Richard Paul e Linda Elder em 2000 produziram um artigo com 9 estratégias para estudantes desenvolverem o seu pensamento crítico de uma forma sistemática e objetiva. Confira:

1.Usar o tempo perdido

O conceito de tempo perdido é algo que costuma frustrar muitas pessoas.

Entretanto, os pesquisadores sugerem utilizar este tempo para desenvolver o próprio raciocínio, por exemplo:

Se você ficou preso(a) no trânsito e isso não estava previsto nos seus planos, o que acha de utilizar esse momento para pensar?

Se está entediado, matando tempo nas redes sociais e na televisão há um tempo, o que acha de separar um pequeno período para exercer o pensamento crítico?

Levante reflexões sobre:

  • Qual foi o seu melhor pensamento no dia?
  • Qual foi o seu pior pensamento?
  • Quais emoções sentiu ao longo do dia?
  • O que aprendeu de diferente e com quem aprendeu?

É importante, contudo, não ter pressa ao pensar sobre essas questões, de modo que a reflexão seja feita com calma e consciência. 

Após um determinado tempo com essa prática, os especialistas afirmam que os padrões de pensamento tendem a mudar e o pensamento crítico atinge um grau mais sofisticado.

2.Um problema por dia

Você não vai conseguir resolver a sua vida em apenas um dia.

Os pesquisadores sugerem que você pense em apenas um problema por dia para chegar à sua resolução.

E então:

1 – Descreva a si mesmo, de forma mais clara e objetiva, o problema enfrentado.

2 – Estude o problema de modo a entender qual o seu tipo ( se é algo que você tem controle ou não, e, se tiver, qual o meio para resolução.)

3 – Busque pelo tipo de informação que você precisa para ir atrás e pesquise e estude até compreender.

4- Cuidadosamente analise e anote as informações que você tem sobre o problema e o que é pode ser a solução.

5 – Defina: o que pode ser feito a curto, médio e longo prazo? Além disso, quais os recursos que você necessita e seus limites ?

6 – Avalie as opções pensadas, destacando os seus prós e contras.

3. Internalize padrões intelectuais

Busque compreender padrões intelectuais para: clareza, precisão, exatidão, relevância, profundidade, amplitude, lógica, significância)

Foque em descobrir padrões de um desses conceitos intelectuais por vez, separando uma semana para a análise profunda do que significa.

Um exemplo: na semana em que seu objetivo for dissecar e compreender padrões de clareza, avalie a si mesmo e aos seus colegas quanto à clareza de sua comunicação. 

Para melhorar sua performance em comunicação, busque aumentar o seu repertório a fim de compreender qual forma de comunicar é mais assertiva:

1) Diga o que precisa de forma objetiva e precisa – com cuidado, selecione palavras que não atinjam o seu interlocutor.

2) Reelabore a frase com sinônimos.

3) Dê exemplos de algo que você fez ou faz.

4) Use analogias, figuras de linguagens e ilustrações para esclarecer seus pontos e solicite aos outros que também o façam.

4. Mantenha um jornal intelectual

Assim você terá um acompanhamento da evolução da sua jornada. 

Descreva: 

  1. Uma situação que foi significativa para você durante a semana
  2. O que você fez? Descreva como reagiu diante da situação
  3. Analise de forma objetiva todo o contexto, à luz do que você escreveu
  4. Avalie o seu comportamento mediante a situação. Apresente resumidamente a lição aprendida.

5. Repense as suas características

Escolha um traço intelectual por mês (perseverança intelectual, autonomia, empatia, coragem, humildade, etc) e foque em seu autodesenvolvimento a partir de suas características. 

Por exemplo, digamos que você separou “empatia” como a qualidade do mês que você quer impulsionar.

Passe a entrar em contato com as emoções das pessoas ao seu redor, verifique sua comunicação, se ela passa a compreensão egocêntrica ou empática, avalie as comunicações verbais e não verbais das pessoas ao seu redor em resposta ao que você diz.

Por exemplo, imagine que você é um(a) gestor(a) e precisa passar determinadas regras novas ao seu time que, à priori, não seriam bem recebidas:

  • Como passar de forma mais empática essas informações?
  • Quais palavras poderiam aumentar o desconforto e devem ser evitadas?
  • Como “quebrar” uma possível postura defensiva que possa surgir? 
  • Como se mostrar, ao mesmo tempo, firme na decisão, e compreensivo sobre cada caso específico?

6. Lide com seu ego

Lidar com o ego é o ponto chave do pensamento crítico. Saber a teoria do desenvolvimento do pensamento crítico sem o esforço constante e diário  de “controlar o ego” não traz resultados.

O exercício de dar menos “ouvido” ao ego é o mais difícil, isso porque nossas respostas automáticas são sempre embasadas no ego.

Por isso, mesmo os grandes pensadores e até os mais empáticos podem acabar tropeçando no próprio ego quando precisarem dar respostas rápidas.

Para lidar com o seu ego, é preciso trazer à razão todas as questões que demandarem julgamento.

7. Redefina a forma como você vê as coisas

À medida em que você for exercitando o seu pensamento crítico, verá que a forma como avalia o mundo ao seu redor ficará muito diferente. 

O grau de maturidade intelectual alcançado te mostrará que: a cada novo problema, uma nova possibilidade de aprendizado.

Utilize o efeito framing ao seu favor e enquadre novos problemas e dificuldades a novos aprendizados.

8. Entre em contato com as suas emoções.

Quando em contato com emoções negativas, pense: o que me leva a ter essa emoção?

Muito ao contrário do que se imagina, essa resposta não tende a ser banal.

Em geral, não se trata de apenas um contexto, mas um grande conjunto, incluindo o que aconteceu no presente e padrões do passado que você teme que se repitam.

Observe o que no seu presente te trouxe uma emoção negativa e está ancorado numa experiência passada.

Em seguida, pense o que pode ser feito para resolver a situação atual e como ressignificar o passado.

Busque entender a razão de suas emoções sempre que possível.

9. Analise como os grupos influenciam a sua vida.

A influência de grupos e comunidades sobre como você reage deve ser analisada minuciosamente.

Isso porque às vezes fica turva a dissociação entre os seus princípios e os princípios de um grupo.  

Os grupos do seu convívio social dão indícios sobre como você se percebe e quais as suas principais convicções, mas existem traços da individualidade que não convergem em totalidade se você tiver senso crítico.

Nesta linha de observação, o objetivo é o refletir:

Sabendo de tendências comportamentais de grupos, e conhecendo-se individualmente, até que ponto você segue os seus princípios ou até que ponto o comportamento de manada pode sequestrar a sua individualidade?

Conclusão

Com esse turbilhão de informação que recebemos todos os dias, saber filtrar o que realmente importa é uma qualidade de poucos. 

Para fugir dos vieses inconscientes que turvam a nossa análise, é preciso se desenvolver enquanto um pensador crítico. 

Esse desenvolvimento requer muito esforço, pois além do pensador estar constantemente em função de “desarmar o ego” também trabalha diariamente a autopercepção.

Embora trabalhoso e extremamente desafiador, o pensamento crítico é uma das soft skills mais desejadas pelas empresas, e colaboradores que têm essa característica estão em grande vantagem competitiva.

Referências:

https://hbr.org/2022/04/critical-thinking-is-about-asking-better-questions

https://bigthink.com/neuropsych/how-to-think-effectively-6-stages-of-critical-thinking/

https://hbr.org/2019/05/3-simple-habits-to-improve-your-critical-thinking

https://www.seagate.com/files/www-content/our-story/trends/files/idc-seagate-dataage-whitepaper.pdf

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