Educação em tempos de Covid-19: Como aprender em casa?Tempo estimado: 7 minutos de leitura


Seja no ambiente escolar, acadêmico ou corporativo, o processo de aprendizagem é o que diferencia as pessoas e coloca-as em destaque a partir de seus níveis de conhecimento e consequente desempenho.

Ao longo da minha experiência enquanto docente e das minhas pesquisas em Psicologia da aprendizagem, descobri alguns mitos muito difundidos sobre aprendizagem, e passei a utilizar alguns princípios como base para a minha atuação. Grande parte dos princípios, eu encontrei no livro ” Learn Better” de Ulrich Boser e irei compartilhar neste artigo.

Pensei em compartilhar um pouco do que aprendi, porque em tempos de covid-19, estamos precisando repensar uma série de fatores: relacionamentos, trabalho, educação, etc.

O trabalho em época de distanciamento social tem sido em grande parte realizado remotamente e estamos precisando aprender esta nova modalidade de trabalho com agilidade enquanto produzimos e ainda lidamos com todas as demandas do lar.

Diante desta crise muitos pais precisam – além de responder às demandas do trabalho remoto e administrar a casa – ajudar seus filhos com as matérias da escola, instruí-los e oferecer apoio educacional e emocional.

Nesta crise estamos precisando nos reinventar enquanto indivíduos e sociedade.

Mas e a Educação?

Educação em Tempos de Coronavírus

Com a Educação não é diferente: É necessário se reinventar enquanto estudante.

Muitos alunos – independente de faixa etária, situação sócio-econômica e escolaridade – têm expressado grande dificuldade com a modalidade de Educação que tem sido a única possível no momento – O Ensino À Distância.

A Modalidade EAD é uma tendência crescente e exige do aluno maior autonomia e organização.

Muitos alunos comentam dificuldade e baixa retenção de conhecimento, mas se fizermos uma breve análise, veremos que estes alunos possuem métodos falhos de estudo onde se colocam como um personagem secundário em seu processo de aprendizagem, responsabilizando o professor pela sua aquisição – ou não aquisição – do conhecimento.

Em tempos de Coronavírus: Hoje, mais do que nunca, é necessário colocar-se enquanto protagonista da própria aprendizagem.

Mas como fazer isso?

Antes de tudo, é preciso esquecer certos mitos acerca da aprendizagem que enquadram as formas de pensar de muitos alunos e professores.

Depois, precisamos aprender o que realmente funciona e praticarmos.

Mitos sobre aprendizagem

1. Pessoas têm diferentes estilos de aprendizagem

Certamente em algum momento da vida você já ouviu essa afirmação.

Imagine que você considera que o seu estilo de aprendizagem mais forte é o auditivo, você acredita que conseguiria aprender a jogar futebol apenas ouvindo como se joga?

E se o seu” estilo de aprendizagem” for visual: você conseguiria aprender a tocar violão apenas olhando alguém tocar?

A aprendizagem exige prática.

Em grande parte das vezes em que ouvi esse mito, as pessoas buscavam ancorar sua comodidade “na ignorância” a partir desta crença e este é o grande problema de carregar este mito enquanto crença pessoal que é falsamente embasada cientificamente.

2. Quanto mais você reler algum assunto, mais você aprende.

“As pessoas tendem a se ver como um computador; os dados que passam por elas de alguma forma entrariam em sua mente ”, afirmou Ulrich Boser “Não é assim que funciona o aprendizado. Você precisa atribuir sentido para entender.

Isso não significa, entretanto, que a releitura não terá qualidade em termos de aprendizagem. Significa que o (re)leitor enquanto sujeito da aprendizagem toma uma posição de passividade e, segundo Boser, a melhor forma de aprender efetivamente é tornando-se ativo perante a disciplina.

3. Quanto mais horas você passar estudando, melhor.

Segundo Ulrich Boser, “A maioria de nós dirige todos os dias, mas a maioria não melhorou a direção.”Passar muitas horas nem sempre significa que você se tornará bom em alguma coisa”.

O grande problema neste mito é levar a pessoa à extrema autoconfiança apenas por dedicar muitas horas ao estudo de uma disciplina.

É certo que dedicar horas ao estudo é essencial, entretanto deve-se lembrar que muitas horas de estudo não refletem necessariamente em qualidade de aprendizagem.

Uma boa forma de sondar o desempenho é compartilhar o conhecimento e pedir feedback aos amigos. Desta forma, conseguimos suprimir a autoconfiança exacerbada e recebemos feedbacks mais críticos que nos ajudarão a evoluir.

6 Condições para a aprendizagem efetiva

1 – Value (valorize)

Antes de estudar qualquer tipo de assunto é necessário que você tenha em mente o seu valor.

Antes de iniciar os estudos pergunte-se: Qual o valor deste assunto?

A resposta à essa pergunta deverá te guiar ao longo dos seus estudos e te fará enxergar a importância do conhecimento a ser aprendido.

Enxergamos o mundo através da nossa lente de “sentido”. Aquilo que faz sentido em nossas vidas é o que raramente esquecemos pois influencia nossas práticas diárias.

Atribuir valor à algum assunto é aumentar a sua motivação em compreendê-lo com profundidade e ter facilidade em criar conexão entre a disciplina aprendida e a sua vivência.

Ao estudar o assunto em que você enxerga valor, a própria aquisição de conhecimento torna-se um evento prazeroso pois o estudo torna-se a sua própria recompensa.

2 – Target (defina o alvo)

Pergunte-se: O que desejo atingir com o conhecimento que pretendo estudar?

A resposta a essa pergunta não apenas agregará mais valor ao conteúdo mas te levará à uma finalidade.

Um estudo sem finalidade e aplicação, mesmo que seja visto como valoroso, à médio e longo prazo deixará de fazer sentido.

É necessário, em primeiro lugar, estabelecer onde se quer chegar com o conhecimento aprendido.

Em geral, funcionamos melhor quando os feedbacks são instantâneos, use a sua imaginação para obter uma recompensa imediata à medida em que vai avançado no conteúdo, vá imaginando estar cada vez mais próximo do seu objetivo.

Além disso, é necessário saber como chegar ao destino que estabeleceu.

Os aspectos emocionais e sociais representam grande influência no processo de aprendizagem, o que enfatiza a necessidade de abordagens mais focadas, ou seja: é preciso criar um plano.

Estratégia errada

Muitas pessoas acreditam que as estratégias de assistir a aulas ou palestras extensas ou ler o mesmo assunto por horas podem levar à aprendizagem de alta performance, o que acontece, entretanto, é o completo oposto.

Antes de guardarmos o que aprendemos em nossa memória de longo prazo, o conteúdo passa pela memória de curto prazo e quando nos expomos ao excesso de informações, isso compromete completamente a nossa memória de curto prazo e nos leva à sobrecarga cognitiva.

Sabendo disso, especialistas como Ruth Colvin Clark, por exemplo, defendem que as aulas de adultos não devem ultrapassar os 90 minutos.

Barreira emocional

Percebi que – em geral – a maior barreira no processo de aprendizagem dos meus alunos era emocional: medo e ansiedade.

Medo e ansiedade “congelam” o desenvolvimento da aprendizagem e atrapalham a compreensão sobre o assunto estudado, o que leva o aluno a:

1. acreditar que possui déficit na compreensão da matéria

2. criar um sentimento de antipatia com a disciplina.

3 – Develop (desenvolva)

Após encontrar sentido, definir o alvo e como chegar lá, você estará pronto para a etapa de desenvolvimento.

O desenvolvimento do assunto é pensar sobre o assunto, praticá-lo e pedir feedback.

Atenção: O tempo gasto com a prática por si só não possui relação com o alto desempenho.

DICA: A melhor forma de aprender é ensinando!

Porque:

  • Quando ensinamos algo, estamos focados em ajudar pessoas, e à medida em que ocorre o processo de aprendizagem – e temos como feedback a compreensão de outras pessoas – nos sentimos emocionalmente recompensados e isso nos motiva.
  • Quando ensinamos algo, temos como feedback as impressões de outras pessoas sobre o assunto, o que torna o conhecimento mais personalizado e mais difícil de esquecer, pois podemos fazer inúmeras associações.

Por isso, peça a ajuda de um amigo para desenvolver o seu conhecimento. Solicite alguns minutos de seu tempo para ensinar o que você aprendeu.

Após a “aula” você pedir ao seu amigo os seguintes feedbacks:

” – Como estou me saindo?”

” – Cometi algum erro?”

” – Como posso melhorar? “

” – Quais conselhos você me daria?”

Desta forma acompanhamos nosso desempenho e nos tornamos mais conscientes de nossos padrões cognitivos e comportamentais.

4 – Extend (amplie)

Seja curioso, busque ampliar o seu conhecimento já que ele apresenta grande valor.

Encha-se de perguntas que possam ser pertinentes e cujas respostas possam tornar o conhecimento mais instigante.

Por exemplo: a curiosidade sobre a origem de certos termos em língua estrangeira pode te levar a uma curiosidade histórica que te marque a ponto de nunca ser esquecido.

5 – Relate (relacione)

Nesta fase devemos ir além do básico, ou seja: devemos ir além da disciplina propriamente dita.

O conhecimento deve se conectar com o máximo de saberes possível para que passe a morar na memória de longo prazo.

Associe, por exemplo, algo que você está aprendendo agora a um capítulo da sua série preferida da Netflix e veja a efetividade desta estratégia.

6 – Rethink (repense)

“Só sei que nada sei, e o fato de saber isso, me coloca em vantagem sobre aqueles que acham que sabem alguma coisa.” Sócrates

Agora é hora de agir criticamente com relação a você mesmo:

Repense o seu conhecimento.

Certa vez, em uma entrevista, Daniel Kahneman recebeu a seguinte pergunta: ” Como as pessoas se tornariam melhores pensadores?”

Kahneman então respondeu: “O que eu eliminaria se tivesse uma varinha mágica? O excesso de autoconfiança.”

O excesso de autoconfiança atrapalha grandemente o nosso processo de aprendizagem e nos cega às coisas que somos ignorantes.

O excesso de autoconfiança nos sai muito caro e vai além da metacognição porque simplesmente não buscamos refletir e explorar o que realmente sabemos.

Achamos que um caderno cheio de anotações que fizemos à mão refletem nosso conhecimento, ou acreditamos que os post-its e canetas coloridas garantiram a nossa aprendizagem.

Diante do assunto que você acredita que aprendeu – e sem consultar qualquer tipo de material e anotações – faça as seguintes perguntas a si mesmo:

” – Como eu resumiria a disciplina em 5 linhas ?”

” – Como eu resumiria a disciplina em 15 linhas?”

” – Quais palavras-chave desse assunto e por quê?

” – Do que se trata a disciplina?”

” – Quais os tópicos e sub-tópicos referente à disciplina e como posso explicá-los?

Em seguida, compare aos seus materiais de estudo e avalie criticamente o seu conhecimento.

Conclusão

A crise do novo coronavírus trouxe uma série de inquietações. O mundo precisou se reorganizar e os métodos de educação e trabalho também precisaram ser repensados.

No sentido da Educação, as pessoas estão tendendo a desenvolver mais o seu protagonismo e responsabilidade com relação ao próprio processo de aprendizagem. O grande problema é que em geral as pessoas não sabem aprender e isso prejudica a retenção do conhecimento, o desenvolvimento individual e até a auto-estima.

Quis, com esse artigo, trazer uma série de descobertas científicas que possam ajudar você a aprender da melhor forma possível neste momento tão delicado de distanciamento social.

Além disso, preparei um material que resume as ideias do artigo e que serve como material de apoio que pode te ajudar com seus estudos! Você pode fazer o download no link abaixo!

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Related Post