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Manipulação na Era Digital – ” Eles” Sabem mais do Que Você ImaginaTempo estimado: 4 minutos de leitura

“Manipulação do comportamento do Usuário pelo Controle de Dados “ esse foi o tema do ENEM deste ano (2018).

Ao saber do tema, em um primeiro momento pensei ” Que ótimo tema! Tudo a ver com Economia Comportamental”

Alguns segundos depois, comecei a pensar sobre quantas pessoas acabariam fugindo do tema, porque de fato, não é lá um assunto do dia-a-dia.

Alguma vez você já comentou sobre algum produto com seus amigos e de repente surgiu um anuncio relacionado a ele no Google, no Facebook ou no Instagram, como que num passe de mágica?

Já percebeu que páginas e postagens que concordam com seus pontos de vista e com o que você acredita surgem “do nada” no seu feed de notícias?

Bem, foi sobre isso que se tratou o tema do ENEM de 2018.

Resultado de imagem para sorria voce está sendo filmadoÀ medida em que expomos nossos pontos de vista e preferências na internet, nossos dados vão sendo compilados para que sejamos perfilados.

Ou seja: nossas discussões, nossos memes, nossas curtidas, compartilhamentos, comentários e conversas – TUDO – está sendo observado, “anotado” e tem uma finalidade.

Manipulação digital – O Viés do Algoritmo

O Viés do algoritmo ocorre quando a partir das suas manifestações em redes sociais, são perfiladas e computadorizados os seus valores.

Por meio de simples conversas e postagens, os algoritmos conseguem analisar as pessoas em um nível social, econômico, cultural e comportamental.

É exatamente esse viés que indica produtos que você comentou com seus amigos que precisava comprar.

As palavras que você usa, tudo o que curte e compartilha, tudo o que gasta um certo tempo lendo, vendo e ouvindo: tudo isso colabora para que sua imagem seja formada diante do Facebook, Google e de outras empresas gigantes que controlam a internet.

O que isso significa?

Isso significa que páginas com as ideias as quais você concorda serão sugeridas para você, as marcas e produtos que você gosta aparecerão na sua tela e as postagens de amigos com os quais você mais concorda irão aparecer para você.

Assim:

  • Nunca sentiremos desconforto em nossas redes sociais.
  • Sempre nos sentiremos apoiados por pessoas com quem compartilhamos a forma de pensar – surge um sentimento de pertencimento e de que somos compreendidos.
  • Com nossas ideias cristalizadas, seremos sempre bons alvos das empresas que fazem uso dos nossos dados.

O grande problema é que esse viés do algorítimo ataca diretamente a nossa liberdade.

Estar sempre em contato com pessoas e ideias que pensam semelhante é nos manter em um bolha de convicções da qual dificilmente sairemos e são confirmadas por alguns vieses estudados pela Economia Comportamental, como, por exemplo, o viés da confirmação de evidência.

O que é Viés da Confirmação de Evidência?

Imagine um julgamento e dois personagens importantíssimos nessa cena: um advogado e um promotor.

O caso do réu e os personagens envolvidos seria o mesmo para ambos os advogados, entretanto a forma de olhar para o suspeito seria completamente diferente:

À medida em que o advogado de defesa olhasse para o réu com atenção aos fatos que o inocentará, o advogado de acusação irá buscar caminhos que levem o réu a ser declarado culpado.

O Viés da confirmação ocorre quando já possuímos uma forma de pensar sobre algo/alguém e voltamos nossa atenção APENAS ao que possa comprovar a nossa forma de pensar, tirando do foco qualquer elemento que possa ir contra as nossas crenças.

Outro viés explorado pelo viés dos algoritmos é o viés da representatividade.

O que é Viés da Representatividade?

Tamanho é o nosso gasto energético ao tomarmos decisões e ponderarmos o contexto para emitirmos julgamentos, que o nosso sistema 1 ( rápido, emocional e impulsivo), tende a nos levar por atalhos mentais que nos fazem chegar a rápidas conclusões sobre pessoas/objetos/ideias.

O viés da representatividade acontece quando, por exemplo, associamos uma classe X de pessoas a comportamentos Y.

É um dos vieses relacionados ao preconceito.

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Veja o seguinte trecho do livro ” O Psicopata Americano”:

”Seu rosto parece muito jovem e vivo e bronzeado para uma pessoa das ruas; isto só torna a sua situação ainda mais pungente.

Examino-a cuidadosamente nos segundos que levo para sair da beira da calçada, até os degraus do prédio de tijolos vermelhos onde está sentada, a cabeça abaixada, contemplando lerdamente o colo vazio.

Levanta os olhos, sem sorrir, ao notar que estou ali em pé junto a ela.

Minha ruindade se esvanece e, querendo oferecer algo delicado, algo simples, me inclino, ainda contemplando-a, meus olhos irradiando compaixão para esse rosto inexpressivo, sombrio, e largando uma nota de um dólar dentro da caneca Styrofoam digo: “Boa sorte”.

Ela muda de expressão e por causa disso noto o livro — Sartre — em seu colo e depois a sacola de livros da Universidade de Colúmbia ao lado, finalmente o café escuro na caneca e minha nota de um dólar flutuando lá dentro e embora tudo isso aconteça em questão de segundos é representado em câmara lenta, ela me olha e depois para a caneca e grita:

— Ei, qual é a sua?

Enregelado, curvado sobre a caneca, agachado, gaguejo:

— Eu não… não sabia que estava… cheia —”

Uma moça sentada em alguns degraus de uma calçada no meio da rua, cabisbaixa e com uma caneca ao lado.

Automaticamente, o protagonista – jovem rico, profissionalmente bem sucedido e que jamais se imaginaria no chão de uma rua lendo Sartre – logo imaginou que a moça era uma mendiga e que necessitava de alguns trocados.

Este livro é cheio de exemplos de viés da representatividade.

Para o personagem principal, a cena que via, criava imagem de uma mulher jovem e menos favorecida.

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O viés da representatividade nos faz criar modelos mentais que nos atraem ou repelem de formas de pensar ou de grupos e muitas vezes alimentam preconceitos que – talvez – nunca teremos a oportunidade combater.

O tema da redação do ENEM de 2018 foi muito bem escolhido e trouxe uma problemática mais do que atual.

O viés do algoritmo tem o objetivo de nos unir ao que acreditamos e nos afastar do que discordamos.

O grande problema é que isso cristaliza as nossas ideias e – conforme vemos em alguns vieses estudados pela Economia Comportamentalnos tira a liberdade e a oportunidade de sermos confrontados com as mais diversas formas de pensar.

Concluindo

  • O viés do algoritmo é um dos grandes responsáveis pela manipulação do usuário das redes sociais.
  • O grande perigo desse viés é nos manter em bolhas de convicção da qual dificilmente sairemos se não soubermos como funciona.
  • Mesmo que nossa tendência seja buscar ideias que embasem nossos pontos de vista, pesquisar formas de pensar que combatam o que pensamos pode nos mostrar outras formas interessantes de pensar.
  • Devemos tomar cuidado com a associação que fazemos entre pessoas e ideias para que não sejamos injustos em nossos julgamentos.

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